Ouvindo uma Mercedes Sosa aqui
fevereiro 27, 2012
Tudo é novo quando se vê com novos olhos. Assim diz a fita que ata o cacho de cabelo de alguém que entrou com um facão cortando o mato do meu coração.
Ouvi Mercedes Sosa a vida toda, meu pai chileno garantiu isso. Aqui ouvi de novo. Era algo familiar. Depois soube que a primeira vez que essa linda mulher cantou ao vivo foi em Cosquin, no festival para qual eu fui para ficar na rua pois não ia pagar. Creio que não tinha ninguém genial cantando zamba assim.
Em todo caso é emocionante o fato de que eu estive lá, décadas depois. Fazendo nada especial, só vivendo minha vida, fumando na rua, vendo uma gringa desmaiar, me deixando aproveitar por um argentino mais drogado do que eu, aproveitando ele por uns instantes, comendo empanadas extremamente oleosas na calçada, washing it down com um fernet pavoroso, dormindo escondida no baú de uma pickup, abrindo espaço entre as pessoas na rua cheia de comerciantes e bares abertos, tentando imaginar a cidade vazia e me apaixonando por ela (sou dessas), andando e me cansando horrores, sem documento nem dinheiro.
Essa noite só não significa muito, mas é uma noite no meio de todo um contexto doido que fez eu ter um encontro exageradamente profundo comigo mesma. E ouvir Mercedes Sosa nunca mais vai ser o mesmo. Amo viver, o que faz de mim uma masoquista, acho.
¿qué cosa fuera, corazón, qué cosa fuera?
Um mingau e um australiano
fevereiro 17, 2012
Cheguei na medida exata de leite e aveia (uma xícara de leite, a vermelha, com tudo que ainda estava na caixa de aveia) e no tempo certo de deixar tudo cozinhando no fogo mais baixo que consegui na cozinha de dentro. Até açucar acertei. O sabor e a textura nunca estiveram tão bons desde que comecei a comer isso todo dia, há quase duas semanas. Ou mais de duas semanas, o tempo está complicado.
Como não se pode ter tudo e a vida é uma brincalhona, um australiano com informações confusas chegou e eu mais confusa ainda recebi ele porque o encarregado está dormindo (foi dormir na hora que eu cheguei, 6:08).
Incrível como eles tem um sotaque difícil de entender. Se pans eu passaria por algo parecido com espanhóis, mas não tive ainda a sorte de conhecer um fresquinho (um basco e um madrileño quase argentinos não contam).
O que quero dizer com tudo isso é… que merda, fiquei esse tempo todo sem escrever nada. A felicidade do último post é pequena demais para cobrir o tanto de tristeza que uma pessoa pode experimentar longe da sua terra, dos seus objetivos de meses atrás, de seus amores e de suas promessas. É um estar sozinho que cada dia tem um novo sabor, e nem sempre é reconhecível ou agradável.
A cidade em si é uma desilusão constante. Não pelo que pensei que seria ou qualquer expectativa nesse sentido, senão porque destrói diariamente a idéia que temos de pátria, terra, nação, casa, familiaridade, pertencimento e coisas assim. Descobrimos que quando amarramos nosso burrinho numa parte fechamos os olhos pro mundo e fica muito difpicil acietar outras possibilidades até que elas se imponham a você (ok que eu decidi viajar, mas a realidade da cidade se impôs fortemente sobre minha inocência). De qualquer forma nem a soma disso tudo pode chegar perto de uma experiência mochileira, que é outro nível de viagem e deve derreter a idéia de terra com um fogo mais forte.
Doidera. E ainda tenho saudade de SP. E chegando a SP vou ter uma crise de saudade de CBA, mesmo não sendo tão linda. Todo lugar do mundo tem suas feiuras e suas lindezas, a gente só pode é aproveitar e abrir bem os olhos.
Enfim